OPINIÃO DO LEITOR: "Isso não é rock!"

OPINIÃO DO LEITOR: "Isso não é rock!"

Admita: você usa ou já usou esta expressão para falar de alguma banda ou artista do gênero.

Por sua própria natureza, o rock sempre foi um estilo coberto de reviravoltas e controvérsias até mesmo entre seus mais fieis seguidores. As diferentes vertentes e sub vertentes (e as vezes sub sub sub sub sub vertentes) que foram surgindo com o passar dos anos – consequência lógica de estilo musical que preza, acima de tudo, pela atitude e liberdade de expressão -, acabaram por dividir a comunidade e até a criar uma certa disputa de legitimidade entre determinados estilos.

Linkin Park
Linkin Park

Por isso mesmo, não é incomum que um fã mais acalorado de metal (e seus sub gêneros), ou um saudosista do classic rock, ou um punk raiz, tenha uma certa aversão a bandas que não sigam à risca a “receita” de como produzir um rock “de verdade”, ou simplesmente não consigam digerir material novo, porque este supostamente não tem a “mesma qualidade de antigamente”.
Ora, quantas vezes falamos ou ouvimos que bandas como Linkin Park, Slipknot, Charlie Brown Jr, NX Zero, CPM22, Avenged Sevenfold, Mamonas Assassinas e muitas outras do cenário nacional e internacional, “não são bandas de rock”, sendo que as próprias bandas se intitulam(avam) dessa forma e mantém(mantinham) determinados padrões próprios do estilo?

Até onde isso é fato ou apenas uma resistência visceral ao novo?

A história e as transformações do rock

O rock n’ roll teve sua origem, segundo teorias mais recentes, na década de 40 e de lá pra cá o estilo veio se reinventando e se dividindo, mas nunca perdendo suas características essenciais. É a famosa “revolução dos 20 anos”, citada por Tomaz Sussekind no vlog do Baú do Rock, no vídeo que trata do Grunge e complementada de forma bastante esclarecedora no episódio sobre o Rock & Rap.

Portanto, praticamente em toda a história, cada geração que se apaixonou pelo estilo “ingressou” no rock por sub-gêneros distintos, e sempre que essas novidades surgiam, em qualquer época, instaurava-se uma enorme controvérsia com a “velha guarda”.

Quem se iniciou com Ramones, sabe bem a resistência que enfrentou no cenário do rock bem trabalhado e tocado da época. Muitos que começaram no grunge encontraram resistência dos fãs de hard rock. E claro, não foi diferente com a geração do fim dos anos 90 e início dos anos 2000, com bandas como Linkin Park, Evanescense e outras, que rapidamente foram rotuladas de todas as formas e acusadas de “não tocar rock”.

Charlie Brown Jr

O fato é que a novidade sempre foi motivo de resistência para os roqueiros mais tradicionais. Muitos – inclusive artistas famosos – culpam essas transformações pela decadência comercial do estilo com o tempo.

Por outro lado, este simples fã que aqui escreve entende que a situação é contrária e que justamente foi essa resistência ao novo, às inovações, que fez com que o rock saísse da grande mídia (para as vertentes que assim queriam permanecer).

A resistência ao novo

Devido à citada resistência a materiais novos (inclusive de bandas já consagradas), é quase que impossível, ao menos no Brasil, que uma banda de rock se lance comercialmente na grande mídia e faça o sucesso que clássicas como Barão Vermelho, Mutantes, Secos e Molhados, Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana e outras das décadas passadas chegaram a fazer.

Embora não faltem composições novas de qualidade, é baixíssima a receptividade de tais materiais pelos próprios roqueiros, o que dificulta a perpetuação do estilo num sentido mais comercial e até mesmo que surjam grandes bandas, com shows faraônicos e hits que não saem das rádios. Muitos tendem a não dar sequer uma chance ao novo material, rotulando-o imediatamente como chato.

Afinal de contas, para um roqueiro orgulhoso, é mais fácil dizer que aquela banda que não o agradou não é rock do que admitir que existem tipos de rock que ele não gosta.

E o que importa, afinal?

(In)felizmente para nós (e me incluo neste balaio), por mais que o new metal não venha a agradar aos fãs do metal tradicional, por mais que o grunge e o punk não tenham melodias mirabolantes, por mais que o Avenged Sevenfold tenha inúmeras pegadas emo em seus refrões e visual, todas essas bandas são sim bandas de ROCK e todas essas bandas foram responsáveis pelo ingresso de novas gerações ao gênero.

O fato é que muitas bandas pouco recepcionadas pelos “antigos” são uma verdadeira porta de entrada para os grandes clássicos e para as demais vertentes. Ora, muitos de vocês certamente começaram com uma banda e foram “pulando” para outras e até para sub-gêneros diferentes, não é mesmo?

Avenged Sevenfold

O que importa para o rock, e para a música em geral, é o significado que aquelas obras trazem às vidas das pessoas e, com o passar do tempo, é imprescindível e até saudável que ocorram mudanças e que o rock se transforme, se reinvente. É plenamente possível que você seja um fã de carteirinha do Led Zeppelin e ouça Cold Play. É completamente aceitável você gostar de Avenged Sevenfold, mesmo que suas origens sejam nos anos 80. Você pode ouvir Yes e Charlie Brown Jr na mesma playlist sem cometer um crime.

Isso nada mais é do que a perpetuação do nosso querido estilo de vida. Sempre se reinventando e se modificando, mas nunca deixando de ser rock.

Portanto, antes de atirarmos todas as pedras possíveis naquela banda cheia de sintetizadores, ou naquela banda com uma pegada mais pop-rock, ou mesmo naquelas bandas novas, vamos nos lembrar da essência desse estilo fantástico, em que a liberdade de expressão (e criação!) sempre foi o motor principal.

Podemos não gostar de determinadas bandas de rock, mas não precisamos excluí-las do gênero pra isso.

Texto enviado pelo leitor Elvis Silva.