“MULHERES NÃO PODEM CANTAR ROCK’N’ROLL. É MUITO PESADO PARA ELAS”

Não fiquem bravas ou bravos comigo… quem falou isso não fui eu, mas Connie Franks, em um artigo da Billboard em 1958, denominado “On the Beat”, ou “Na batida”, em tradução livre. Minha opinião sincera vocês podem ver aqui: http://baudorock.net/2019/05/quem-inventou-o-rocknroll/ . Mas frases como essa eram a regra naquela época em que a mulher era relegada ao valor de mercadoria e fã histérica não era reconhecido, tempos muito tristes e que começam a ficar para trás… ainda bem que estão mudando, pelo menos para uma grande maioria, como esse que vos escreve. Só que esse comportamento histórico que deixa muita gente mordida de ravia, motivou Leah Branstetter, uma especialista em música de Ohio, nos EUA a fazer uma pesquisa para sua tese de mestrado para entender melhor a importância das mulheres para a cultura do rock e, é claro, o Baú não poderia deixar isso passar em banco.

“Centenas de mulheres e garotas criaram e tocaram rock and roll nos ans 50 e anos 60. Essa contribuição ajudou a configurar a cultura e os sons do rock and roll”.
(Leah Branstetter, PhD em musicologia)

A pesquisa da Dra. Leah

O mundo se curva diante da história e da importância da Sister Rosetta Tharpe, mas ela nunca esteve sozinha entre as mulheres que influenciaram o rock. Dra. Leah comenta sobre o fato de que por mais de 60 anos se convencionou dizer que mulheres não participaram da ativa vida do rock nos anos 50 mas que, na realidade, centenas e talvez milhares delas se apresentaram e gravaram rock n roll durante aquela época. Isso sem falar nas outras tantas que eram compositoras, trabalhavam ou gerenciavam pequenas gravadoras em todo o país. Com isso em mente, ela se meteu a entrevistar pessoas que viveram a cena do rock à época, familiares e muitas artistas ainda vivas para construir o arcabouço que com certeza vai te fazer ver o rock de uma forma muito mais humana e muito mais… deliciosa! Suas pesquisas a levaram a conhecer inúmeras artistas, algumas que conseguiram sucesso nacional mas muitas de alcance regional e muito mais em pequenas localidades, em bares e clubes da época. E ela entendeu isso como um presente que a vida lhe dera e que decidiu compartilhar com o mundo com a inteção de perpetuar essa história e, para ajudar, ela construiu algumas playlists disponíveis na plataforma Spotify que eu comecei a ouvir e não coneguia parar.

Ouvir as playlists me levou a uma viagem em uma máquina do tempo recheada de grandes figuras e músicas maravilhosas. Os olhos fechados abriram os olhos da imaginação que me teletransportaram para pequenos clubes nos anos 50, mesas com garrafas de whisky e jovens se amontoando, alguns fumando, outros dançando e, no palco, a cantora com sua voz potente trazendo aquele som maravilhoso. Dali para igrejas num Domingo ensolarado pela manhã, as senhoras elegantes, as crianças levando puxões de orelha para ficarem quietas, os homens em seus ternos de linho e, lá na frente, um grupo de mulheres alimentando a alma e satisfazendo o espírito para a dura semana que viria. Não havia arenas multi uso, mas casas de show, cabarés, pequenos „halls“, galpões improvisados, improvisação herdada do jazz e do blues para receber as artistas. E, claro, as praças públicas, com o palco circundado por um gramado impecável onde o povo se reunia para ouvir. Mulheres fazendo sucesso por todas as partes… e lutando contra o preconceito. Sexo frágil o cacete!!!!

Playlists de responsa – as mulheres de Leah

A play list principal traz 38 músicas, com várias cantoras, entre elas Shirley & Lee com Let the Good times Roll, Wanda Jackson com Fujiyama Mama (uma das minhas preferidas!!!), Barbara Pittman com I need a man (desculpe mas não posso!!!!), Etta James (que voz) com The Wallflower, Laura Lee Perkins com Kiss me Baby (delícia de música) e a clássica Jambalaya com Brenda Lee (muito legal). Tem mais de 1,5 hora de música de altíssima qualidade que vale muito a pena. Mas só se você for capaz de fechar os olhos e se colocar no contexto da época. Abaixo vocês podem ver o nome da play list e alguma das músicas.

A lista principal traz 38 músicas e pode ser ouvida no modo grátis

Uma segunda play list, essa bem menor, com 11 músicas (e algumas repetidas da playlist principal), traz uma coletânea chamada de “músicas de resposta” (answer songs) que foi um estilo muito utilizado na época como forma de capitalizar em cima de algum sucesso. Fucionava assim: uma música fazia um sucesso e, na sua esteira, alguém fazia uma outra composição respondendo ao tema da original, geralmente com uma mulher respondendo ao homem. Na playlist, estão em sequencia a música original e sua “resposta”, como por exemplo: Baby, don’t do it (Querida, não faça isso) com The 5 Royales e a resposta Baby, I1m doing it (Querido, eu vou fazer isso) com Annisteen Allen. Morri de rir, simplesmente genial e fica muito claro vendo a lista abaixo.

A lista de músicas de respostas… vale a pena conhecer mais sobre esse estilo

Finalmente, a última playlist é chamda de Vocal harmony and Girl Group, ou seja, conjuntos somente de mulheres do rock da época com grupos bem legais como Shirle Gunter, The Shirelles e The Teen queens. Vale a pena ouvir Mr. Lee (não sei quem ele era, mas não conseguia ficar parado ouvindo… o cara devia ser bom) e a toda cheia de duplo sentido Lollipop…

Play list com grupos de mulheres

Confesso que a Dra. Leah conseguiu tocar fundo no meu coração peludo e me fez viajar longe e ter meu respeito pelas rockeiras de outrora crescer ainda mais e amar esse gênero que realmente transformou a vida de muita gente e me ofereceu a oportunidade de ouvir muita música boa de uma época não tão distante de nós, mas que parece ter sido em outra encarnação!

A pesquisa da Dra. Leah ainda não terminou e ela continua procurando por mulheres que fizeram parte dessa história. Caso vocês conheçam mulheres da época que se dsestacaram no rock n roll ou se quiserem conhecer mais sobre a pesquisa, o site dela é http://www.womeninrockproject.org/ e na aba „About“ tem os campos para preencher!

Foto principal: The Chantels, foto do perfil de facebook The Legendary Chantels

Baú do Rock

About the Author: Luiz Totti

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