Black Woodstock: 50 anos de história e ninguém se lembra

O verão de 1969 foi prolífico em festivais de grande notoriedade na terra do Tio Sam, também conhecida como Estados Unidos da América. Embora muitos só reconheçam o país pela Disneylandia ou Holywood, o país foi e é berço de muitas revoluções culturais que mudaram o mundo ou a forma como o mundo era visto. Infelizmente, por razões que os americanos conhecem bem, muitas delas são segregadas a segundo plano, como o Harlem Cultural Festival, ocorrido pouco depois de Woodstock e, portanto, chamado de Black Woodstock (ou o Woodstock da música negra).

Vale lembrar que, durante os anos 60, a segregação racial nos EUA era violentíssima e, nessa época, a luta pelos direitos civis do negros estava atingindo seu ápice. E foi nesse contexto que Tony Lawrence, um performance da noite nova iorquina começou a elaborar uma maneira de homenagear a cultura negra, tão proeminente na música, no panorama norte americano e, principalmente, em Nova York, com as tensões raciais à flor da pele, sonhando como embrião do Black Woodstock.

Imagem de tony lawrence em 1969 e recente
Tony Lawrence foi o criador do Harlem Cultural Festival (Black Woodstock)

O festival, chamado de Harlem Cultural Festival (ainda não era conhecido como Black Woodstock), teve suas origens em 1967 quando Lawrence conseguiu um emprego como administrador de parques do Harlem e, em conjunto com o prefeito da cidade à época, John Lindsay (para surpresas de muitos, um Republicano progressista), começaram a elaborar eventos de verão gratuitos nos parques do bairro. A idéia era fazer 4 finais de semana consecutivos de shows, e o parque escolhido foi o Mount Morris Park, cujo nome mudou para Marcus Garvey Park e é até hoje conhecido por esse nome. Esse parque é o único responsável pela interrupção da 5ª Avenida, uma das mais famosas do mundo, por quatro quarteirões. O grande cagaço era que pudesse haver protestos violentos contra o festival, o que nunca se comprovou. A música, afinal, é o maior, melhor e mais eficiente intrumento de paz e amor do Universo.

Foto de Harlem Cultural Festival
John Lindsay sai de trailer com Mahaila Jackson

Os primeiros anos já foram um sucesso, atraindo mais de 25 mil pessoas por final de semana, com foco em jazz, blues e gospel, todos pais ou irmãos do nosso amado rock, mas foi em 1969 que Lawrence realmente se movilizou para fazer um evento grandioso, atraindo patrocinadores e artistas famosos, construindo um lineup de muito respeito, com Nina Simone, B.B. King, Sly & the Family Stone, Chuck Jackson, Abbey Lincoln & Max Roach, The 5th Dimension, Gladys Knight and the Pips, Stevie Wonder, Mahalia Jackson e Moms Mabley, entre tantos outros. Não à toa, canhou a alcunha de Black Woodstock, uma contraposição irônica com relação à proposta de Woodstock.

Alguns dos participantes do Harlem cultural Festival de 1969

Trezentas mil pessoas… isso mesmo, 300.000 pessoas se mobilizaram para assistir aos shows no verão de 1969, rivalizando com a Woodstock famosa, que acontecera a aproximadamente 160 km ao norte e que atraira, então, 400 mil pessoas num úniico final de semana. Culturalmente falando, ambos festivais tiveram um ENORME relevância, mas somente o que aconteceu em Bethel entrou para a história, com todos os méritos, ficando o do Harlem em Segundo plano e até na obscuridade. Qual a razão de o Black Woodstock não ser tão lembrado?

Parque onde foram realizados os Festivais Culturais do Harlem nos anos 60 e onde se fez o festival comemorativo de 50 anos

Pois é… no ano em que todo mundo fala sobre o cinquentenário de Woodstock, um outro festival também aniversariando em seus 50 anos é esquecido por quase todos… Afinal, todo mundo soube sobre o cancelamento do show comemorativo de Woodstock mas quantos soubemos sobre o festival que aconteceu no mesmo local de 50 anos atrás para comemorar os 50 anos do Black Woodstock? Pois sim, ele ocorreu no mesmo parque, hoje com outro nome, no último dia 17 de Agosto…

Baú do Rock

About the Author: Luiz Totti

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