O dia em que a terra parou – a verdade por trás da letra de Raul

Uma devida explicação

Não são poucos os que se perguntam o que estaria por trás das letras criadas pelos nossos grandes roqueiros, mas são pouquíssimos os que sabem a verdade verdadeira por trás das criações mais belas do Universo do rock. Por anos guardei segredos que adquiri ainda muito jovem lá na pequena cidade de Mairinque, que foi, durante muito tempo, ponto de visualização e encontro com seres de outros planetas, em especial na pedra grande, na parte mais alta da cidade, ao lado da Prefeitura. Foi lá que conheci Jawffidtt, um ser de 66,6 cm de altura, olhos vermelhos e sorriso largo no rosto e que trazia, após cada anoitecer que porventura nos encontrássemos, histórias sobre como sua civilização influenciara a composição dos grandes clássicos do rock. Sim, senhoras e senhores, foram eles, os lupetoquianos que entraram nas cabeças de nossos ídolos e os fazem criar as mais belas canções, e agora, somente depois de muitos anos, recebi autorização para contar para vocês. Hoje vou contar a história de “O dia em que a Terra parou”, do pequeo Raul que, entre os grandes da história do rock era o mais incrédulo sobre Lupeto e seus habitantes, mas com muito talento e, com certeza, potencial de se tornar quem, enfim, se tornou.

Pequeno morro com as pedras, ponto especial para os encontros. Ao fundo, a Prefeitura

O primeiro contato de Raul com os lupetoquianos

Era uma noite estranha aquela, a garoa fina se misturava à neblina que lentamente subia do campo de grama rala, tanto futebol que ali se jogava, a fumaça do cigarro barato tomava proporções diferentes, colorações obtusas e formatos que divertiam o pequeno Raul, um alento ao final de mais um dia frustrante e difícil. A mão manuseava o cigarro como se fora um pincel, usando a névoa como a tela de suas viagens mentais e, de repente, algo estranho fez Raul ficar parado como uma pedra: em um movimento de braço, pintou algo que parecia ser um menino de olhos vermelhos que não dissipava. Com medo, deu um passo para trás e chocou-se a uma árvore que, mais tarde reflitiria, jamais exisitira no centro do campinho de futebol da vila.   

Sua mente processava pensamentos como se fora um computador de última geração, ativando o modo pânico, o cigarro jogado ao longe, traçou seu plano de fuga, mas sentiu suas pernas abraçadas pelas raízes da árvore que não existia, braços protetores de seus visitantes, que o carregaram através de um portal para uma sala de controle toda envidraçada, cada janela exibindo um pedaço do que Raul jamais vira.

A inspiração

Na primeira janela ele viu a fábrica, a bendita e amaldiçoada, criadora de alegris e sofrimento, mas não viu a fumaça preta, se não a beleza escondida por trás da fuligem que encobria as paredes. Como também não viu o patrão, mórbido senhor, imaginado com um chicote na mão, mas encontrado na mesa do café da manhã com sua família, estátuas de pedra. E os empregados também não sairam de casa, pareciam cientes que o patrão não estaria lá. E ali, Raul viu o mundo em movimento.

A segunda janela mostrava o pequeno ambulatório, ali chamado de Hospital, agora em cores brilhantes, sem a aura nervosa e inquieta, pensamentos de quem sabe que entra, mas não sabe se sai. Procurou pelo médico e o encontrou, estático, no quintal de sua casa, braços abertos para amparar o vôo de seu pequeno super herói, enquanto os pacientes, agora nem dor nem sofrimento tinham mais. Os pacientes já não precisavam de sua paciência de esperar, pos já não havia mais nada de ruim a acontecer. E, ali, Raul viu a cura.

Na terceira janela, viu as paredes brancas e portas azuis da Escola da Professora Sonia Bahia e não ouviu os gritos e tampouco viu as correrias das crianças! Os professores ficaram em casa aprendendo o que não precisariam mais ensinar, pois os alunos já haviam aprendido suas lições. E ali, Raulzito sentiu paz e viu que o saber nunca acaba.

E, assim, se sucederam todas as janelas, e viu que o padre, sem sua batina, estava de sunga na piscina, e os outrora fiéis, já nem na porta da vazia igreja se aproximavam; policiais e bandidos foram vistos brincando na praça central, algemas e armas enterradas nos fundos da cadeia, agora pintada em cor de rosa e roxo. E tantas outras coisas viu Raul, até perceber que a terra não havia parado, mas os lupetoquianos estavam dando a ele uma chance única de criar uma nova perspectiva. E percebeu que, enquanto era tudo tão lindo e maravilhoso, era como se fosse uma sociedade completamente alternativa à que ele vivia. E entendeu que, embora o Mundo não pudesse parar, poderia alegrá-lo com sua idéia e tentar mudá-lo com aquela sociedade alternativa que acabara de idealizar.

A descoberta de Raul

Raul piscou, levou a mão ao bolso para pegar mais um cigarro e sentiu sua roupa úmida: estava então deitado sobre a marca do penalti do lado sul do campo, a cabeça apontando para o poente. Já não havia mais névoa, o sol começava a surgiu por trás de seus pés, a noite havia ido se deitar, chamando-o a retomar o dia e começar sua jornada. Levantou-se, levou os dedos sujos à sua vasta cabeleira, ajeitando as madeixas encaracoladas e foi caminhando, cantarolando uma melodia que insistia em estar na sua cabeça, riu e cantou baixinho para si mesmo: “essa noite eu tive um sonho de sonhador…”.

Correu para a venda de seu Mané, pediu um pingado com pão na chapa e anotou algumas palavras em dois guardanapos de papel: no primeiro, anotações de seu “sonho” e a frase que acabara de cantar; no segundo, “viva a sociedade alternativa”. O dia em que a terra parou foi a primeira vez que Raul descobriu sua veia, mas guardou o guardanapo de papel ainda por muitos anos antes de transformá-la no que foi. Ao seu lado, no seu Mané, um cara chamado Paulo o observava, pulando como um coelho, começaram a conversar e Raul contara a ele o sonhoque tivera. E descobriram que tinham algo em comum, mas isso é papo para uma outra história.E foi assim que Raul compôs O Dia em que a Terra parou.

A anunciação para TT

Essa história é verdadeira e me foi anunciada por Jawffidtt, não por palavras ou livros, mas por projeção, com as imagens sendo exibidas nas paredes da Prefeitura de Mairinque, que mais pareciam ser feitas de tecido, pois balançavam ao sabor dos ventos, uma tela de cinema gigante e repleta de cores. Não guardei registros pois não gravei nem fotografei: tudo o que levava para esses encontros eram meus olhos e meu coração, abrindo meu livro imaginario de memórias para o que eu iria ver. E hoje, depois de tantos anos, recebo autorização para compartilhar com vocês.

As árvores ao fundo do Paço Municipal, perfeitas para a projeção das imagens

Obviamente, essa é uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade será mera coincidência (mehor explicar antes que afirmem que eu usei substâncias ilegais ou me chamem de louco!!!). A arte de capa da matéria é do mago das artes Alex Gamin. E, para quem gosta de obras de ficção sobre o Universo do rock, publiquei  um conto entitulado “Rock in Heaven” no qual o Maluco Beleza também fazia parte. Veja nesse link http://baudorock.net/2019/08/rock-in-heaven-edicao-50-2019/

Baú do Rock

About the Author: Luiz Totti

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