O rock está perdendo sua relevância?

Como diriam lá no saudoso Castelo Rá-Tim-Bum, senta que lá vem a história…

A inspiração

A cada divulgação de um line up de um grande evento de rock no Brasil vemos uma enxurrada de reclamações sobre a quantidade e qualidade de bandas de rock. Assim foi com o Rock in Rio, Lollapalooza e será a cada mega festival que porventura venha a ocorrer em terras tupiniquins. 

Além disso, múltiplos rockeiros de peso chegaram a considerar o rock como morto ou em decadência: Gene Simons, Joe Perry, Lemmy, John Mellencamp para citar alguns. E a cada comentário que eu lia, sentia vontade de entender melhor esse movimento, o que me motivou a pesquisar e escrever esse texto.

Quero deixar claro que o objetivo desse artigo não é elaborar uma tese nem mergulhar fundo nas possíveis causas da perda de popularidade do rock. A ideia é apenas trazer pedaços de informação para abrir o debate sobre um tema que tem nos chamado a atenção: o rock está perdendo sua relevência? Para isso, me baseei em informações de diversos sites e dados retirados de plataformas especializadas em música.

O rock e a história da música

Primeiro, é preciso entender como e quando o rock entrou na história da música. Uma fonte interessante de informação é o canal, no YouTube, Data Is Beautiful, que traz aqueles gráficos animados com dados históricos. O site não deixa clara a abrangência ou o escopo da pesquisa dos dados, mas me parece bastante fidedigna com relação ao que temos visto ultimamente. O infográfico em questão está nesse link https://www.youtube.com/watch?v=eP88FUL7d_8 e traz a história dos gêneros mais populares (no Mundo ou nos EUA???) desde 1910. Assistam ao vídeo que vale muito a pena, mas aqui trago alguns destaques.

Obviamente, no começo, Ópera e outros gêneros mais clássicos eram os mais populares até que, em meados de 2015, surge o country americano que domina por quase 20 anos, até 1934, quando é ultrapassado pelo Jazz, que entrara na lista 9 anos antes. Nos próximos 19 anos, o Jazz domina, alternando com o country, o que dá, a esses dois gêneros, uma dominância de quase 40 anos, até que, em 1953, o R&B se torna o mais popular.

A primeira entrada de rock entre os mais populares se dá em 1951, com o Rockabilly, seguido pelo Rock and Roll que entra no top 10 em 1955, assumindo a ponta no ano seguinte, lá permanecendo por 5 anos, até ser ultrapassado pelo Soul. De lá para cá, surgem outros sub-gêneros de Rock, como o Indie, o Alternativo, o hard rock e o punk, mas nunca mais um desses gêneros permaneceu no topo por mais de 1 ou 2 anos. Se somássemos todos, acho que a história seria diferente.

A década de 70 viu a dominância do Disco, a de 80 a do Techno e a de 90 da música eletrônica (House) até que em 2005 começa a popularização do Hip-Hop/Rap, que segue até hoje como o gênero mais popular.

Rock, a preferência nos Estados Unidos

Curioso, entretanto, notar que, quando vamos para os estados norte americanos, e de acordo com o site de streaming Pandora, a preferência musical fica entre o rock e o country, como mostra o mapa abaixo.

Mapa do rock
Preferência de estilo musical por Estado americano

Fonte: https://www.grizzlyrose.com/most-popular-music-genre-by-state/

Óbvio que não é conclusivo, mas chama a atenção que, enquanto as rádios são dominadas pelo Rap, no streaming, que é onde o usuário tem a escolha à sua mão, o rock e o country dominam.

O rock no Superbowl

Um outro indicador é o show do intervalo do Super Bowl, que é a decisão do Campeonato de Futebol Americano (EUA), o evento esportivo com maior audiência do mundo. Desde 1967, quando a nova BFL (Liga Nacional de Football) nasceu, o show do intervalo é o evento mais esperado do ano e o minuto mais caro para propaganda de todo o ano. Esse ano terá Jenniffer Lopez, e os últimos 10 foram Justin Timberlake (18), Lady Gaga (17), Coldplay, Beyonce e Bruno Mars (16), Katy Perry, Lenny Kravitz, Missy Elliott (15), Bruno Mars, Red Hot Chili Peppers (14), Beyonce and Destiny’s Child (13), Madonna, LMFAO, Nicki Minaj, M.I.A. and Cee Lo Green (12), The Black Eyed Peas, Usher, Slash (11) e The Who (10). OU seja, de 21 artistas que subiram ao palco, somente 2 eram do rock. Lembrando que o rock é a trilha sonora oficial da enorme maioria dos intervalos nos esportes norte americanos mas, quando chega na hora do clímax, entram outras coisas.

O rock nas paradas Brasileiras

Basta uma rápida pesquisa para descobrir que já não há mais grandes e estrondosos sucesso do rock and roll no top das paradas da maioria dos países, a não ser em rádios e outros veículos especializados, e salvo uma ou outra exceção. O site connectmix.com (https://www.connectmix.com/confira-ranking-das-musicas-tocadas-em-2019/), por exemplo,  publicou, no começo de 2020, a lista com as 100 músicas mais tocadas nas rádios de todo o Brasil, seguindo as seguintes categorizações: “rádios FM, período anual, ano de 2019, abrangência nacional, tipo de ranking musical, todos os gêneros musicais.” Talvez a pesqisa e mesmo a fonte não sejam 100% precisas, mas acho que traz uma boa fonte de informação.

De acordo com essa lista, 69% das músicas mais tocadas no Brasil em 2019 foram sertanejas e 7% classificadas como “Pop/Rock/Reaggae”, numa lista que traz Anitta, Ludmila e Melim… quer dizer, de Rock e Reggae, a menos que eu esteja muito desatualizado, não tem nada. Veja a tabela abaixo:

Músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2019

Os mais populares em 2019

Mais recentemente, em Janeiro de 2020, a Nielsen Music/MRC Data divulgou o relatório final de consumo de música nos EUA para o ano de 2019 e dali dá para tirarmos algumas considerações bem legais. Por exemplo, entre os 10 artistas mais tocados em streaming on demand (onde o ouvinte faz a escolha de forma ativa), o rock emplaca Queen, em Sexto lugar (com 3.7 bilhões de exibições) e Beatles, em décimo, com 2.6 bilhões. Mas a partir daí começamos a ver como o perfil de quem ouve rock é diferente. Enquanto na venda total de álbuns (incluindo os digitais e downloads de músicas individuais) nenhum rockeiro aparece no top 10, quando a coisa vai mais para o álbum físico, há uma mudança. Em álbuns físicos em geral, 4 de rock fazem o Top 10, sendo 3 do Queen e 1 do Elton John. Já no bom e velho vinil, são 8 no top 10, com Beatles, Queen (2), Beach boys, Pink Floyd, Michael Jackson, Bob Marley e Fleetwood Mac. Um outro dado interessante é a participação de cada estilo no mercado em geral. O Rock é o segundo estilo mais popular, com 20% do volume total de música veiculada com liderança total na venda de álbuns físicos (42%) e digital (32%). Outra pesquisa feita pela Nielsen aponta que o rock ainda é o estilo preferido para americanos e canadenses e o segundo mais popular para os ingleses, enquanto cai para terceiro na Alemanha.

E aí você pergunta, e em 2019, quais foram as mais tocadas do rock? Aí váo o top 5 de cada categoria:

Artistas: Queen, Beatles, Imagine Dragons, Panic! At the Disco e Twenty One Pilots

Albuns: Queen (trilha do filme), Elton John (Diamonds), Queen (Greatest Hits Vol 1), Panic! At the Disco (Pray For the Wicked) e Beatles (Abbey Road)

Músicas: Panic! At the Disco (High Hopes), Queen (Bohemian Rhapsody), Imagine Dragons (believer), Imagine Dragons (Natural) e Imagine Dragons (Thunder)

Para se ter uma ideia, o Quinto colocado da música pop (Lewis Capaldi – Someone you loved) teve 50% mais reproduções do que High Hopes, a número 1 do rock.

Vejam a pesquisa completa, em inglês, aqui: https://www.billboard.com/files/pdfs/NIELSEN_2019_YEARENDreportUS.pdf

 Aliás, o Baú já trouxe esse tema recentemente aqui mesmo no site, veja o link http://baudorock.net/2020/01/nao-tem-rock-na-lista-dos-rocks-mais-tocados-na-billboard/

A opinião dos especialistas

Sabemos que o rock não morrerá, mas há razões para acreditar que ele tem perdido popularidade, principalmente entre as novas gerações. Seguindo na mesma linha da pesquisa, encontrei alguns argumentos que coloco para discussão:

A subversão típica do rock jamais morrerá. Ponto. Mas a forma de expressão como era nas décadas passadas está deixando de existir. Hoje, escrever música não é somente botar uma letra numa harmonia, juntar 4 caaras de jaquetas e cigarros na boca e emplacar a música. Hoje a produção digital é mais importante que tudo, principalmente para as rádios. Entretanto, o rock continua sendo um estilo insubstituível quando se trata de fazer shows ao vivo. Danny Ross, colunista da Forbes

O site whatculture.com traz “9 razões pelas quais o rock and roll morreu”, concluindo que o rock, em sua essência, existiu mesmo por pouco tempo. Depois vieram ramificações. Até quando isso irá?

1 – Mudança demográfica: a faixa entre 18 e 34 anos, maior consumidora de música, mudou seu gosto para algo além do rock, como era nos anos 60

2 – A chegada da Internet trouxe tanta oferta de música que não se consegue mais deixar uma música muito tempo no ar. São os sucessos do minuto

3 – As grandes mídias de música, como Pandora e Spotify preferem focar suas “sugestões” nos artistas consagrados, que vendem mais, diminuindo o alcance de novos artistas

4 – Custos dos tours tem aumentado sinificativamente, o que torna proibitivo a quantidade de shows que havia no passado, ou sobe demais o custo do singressos

5 – A alma do rock, que é a música de protesto, já não vende tanto e, por isso, os novos artistas não conseguem mais a mesma capacidade de se financiar como no passado

6 – O dilema da nova geração de rockeiros em fazer uma música que agrade ao gosto dos “setentistas” e, ao mesmo tempo, dos apelos comerciais das midias, sem os quais ela não enche estádio. Daí a introdução de mais elementos “pop” no rock atual

7 – Falta uma clara definição do que se espera do rock hoje em dia

8 – O efeito de “polinização”, ou seja, a multiplicidade de sub genêros, o que torna difícil de se definir qual é o verdadeiro rock and roll. Pop rock, punk rock, soft rock, hard rock, indie rock, acid rock, garage rock, alt rock, art rock, surf rock, space rock, rap rock, skate rock, glam rock, goth rock, folk rock são alguns dos muitos tipos de rock

9 – Os próprios astros do rock tomam como base um momento que não existe mais. Se esperarmos por um novo Dylan ou um novo Beatles, sucumbiremos. Isso é “Nonsense”, ou sem sentido algum.  

Link para a reportagem: http://whatculture.com/music/9-reasons-rock-and-roll-is-dead-and-never-coming-back?page=8

Bob Lefsetz, um famoso analista da indústria fonográfica americana, diz que o “rock atingiu seu ponto final, assim como foi com o jazz. Não morreu, nem morrerá, mas não será grande como foi um dia”

O site digitalmusicnews.com entrevistou Sat Bisla, um executivo de A&R (Artists and Repertoire, que é a divisão das gravadoras responsável por observar, recrutar e desenvolver a estratégia de divulgação de artistas, novos ou não). Segundo ele, o rock não morreu, nem morrerá, mas tem perdido relevância em função do crescimento de outros genêros que tem falado mais com os ouvintes e consumidores. Aliás, segundo ele, existe uma quantidade incomensurável de novas músicas e doferentes gêneros chegando, mas quase nada de rock. Ele também diz que não é um problema específico do rock, afirmando que não vê mais a possibilidade de um gênero dominar a arena por longo período de tempo. Ao ser questionado se o rock ainda tem chance, sua resposta foi direta e assertiva: “sim, com certeza!” Dependerá de como e para onde soprarão os ventos culturais (e quiçás políticos) soprarão. “Para o rock, é necessário aquele momento na história em que uma banda fale com uma geração de forma direta, como o Nirvana fez com a geração X, quando eles criaram um movimento global. Eu acho que, enquanto isso não acontecer, não veremos uma banda vindo dos pubs ou dos barzinhos surgirem diante das grandes massas”.

Minha Humilde Opinião

Baseado em tudo o que li, vi e senti, o principal ponto que eu tiro dessa pesquisa é que existe uma grande contradição entre o que nós gerações dos anos 50-80 queremos e aquilo que é possível nos anos 2010-20.

Nós náo aceitamos muito bem mudanças no tradicional vocal-baixo-guitarra base-guitarra solo-teclado. Qualquer elemento extra adicionado vira “pop”. Enquanto isso, hoje em dia há muita utilização de recursos eletrônicos, ajustes digitais, entre outras coisas.

Nós preferimos shows ao vivo e o mosh pit, o velho vinil raspando na agulha, estamos começando a entender o Spotify. Enquanto isso, hoje o streaming e as plataformas digitais de música são a forma mais popular de consumir música. E tem zilhões de oportunidades lá.

Quando a molecada faz uma música que vende, nós clamamos que “isso não é rock”; quando fazem um rock tradicional, dizemos “que falta de originalidade”. Isso cria uma baita confusão nas novas bandas, e é muito mais fácil se render ao pop e vender do que satisfazer insaciáveis. Talento existe de sobra, só não é o talento que nós queremos…

Resumindo, o rock envelheceu junto com a geração que o popularizou e nós seguimos amando o passado, né Elis? 

Além disso, entre outros fatores causaram essa queda de popularidade, estão a criação de “tribos”, ou silos dentro do rock com as múltiplas sub categorias, cujos fãs insistem em não se entender. E teve a ascenção de estilos como o Hip Hop/Rap. Os tempos mudaram, os problemas socias mudaram, as necessidades da população mudaram, e outros ritmos hoje falam mais com a população do que o rock. Nesse aspecto concordo com o que disse Sat Bisla.

Enfim, o rock não morreu nem morrerá. O rock veio para promover uma revolução cultural, e a fez de forma muito eficiente, trazendo um caos saudável para uma sociedade que estava em meio a um conflito de identidade. Por isso jamais morrerá. Mas sim, perdeu e talvez continuará a perder sua relevância nas novas formas de mídia e outros estilos musicais.

E voltará a ser forte quando houver outra mudança social que demande essa rebeldia única do rock. E pressinto que não está muito longe. Mas nós também precisaremos ouvir o “novo rock” com novos ouvidos. Como disse Bob Lefsetz, o rock clássico será como o jazz: uma música que afaga aos ouvidos de alguns privilegiados. Por isso, aproveitemos nossos ídolos enquanto eles estão por aí.

Minhas conclusões representam minha forma de pensar, apenas, e não tem a pretensão de serem definitivas e nem impostas. Elas refletem minha maneira de ver o cenário, apoiando em dados e histórico recente, por isso, não atirem seus tomates podres sobre mim! Vamos somente expandir o debate e buscar entender o que houve com nosso bom e amado rock.

Existe muito mais comentários e discussões sobre o assunto, mas agora queremos ouvir sua opinião. O rock está perdendo relevância? Por que?

Baú do Rock

About the Author: Luiz Totti

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