Keith Richards: O dia em que eu cheirei o meu pai

– Meu pai sempre foi um bom sujeito, mas nunca me conheceu bem. Ele só me conhecia por fora, nunca soube como eu era por dentro.

Assim começa o desabafo de um filho que, por quase 59 anos teve uma convivência problemática com seu pai. Herbert, um jovem britânico que daria a vida pela sua rainha, cresceu em uma Inglaterra próspera mas que começava a perder suas colônias, colocando em risco a soberania e o status do país. Quando eclodiu a Segunda Guerra, lá se foi Bert, jovem de 20 e poucos anos, defender a pátria, lutar contra Hitler e seus asseclas. Se machuca logo no dia-D, perde os órgãos genitais e é obrigado a voltar para casa capado, triste, desolado, desanimado. Até o dia em que conhece Doris, com quem se casa e, enfim, tem um filho, Keith, nascido em 1945, único da linhagem dos Richards. Pai é e, sempre foi, quem cria.

Pai de Keith richards sendo resgatado após acidente HOR-RÍ-VEL
Resgate do soldado Bert. Um terrível acidente

Keith foi um menino problema, tendo sido expulso das escolas que frequentara por, justamente, enrolar e não frequentar agora. Num trem, uma vez, reencontrou Mick Jagger, seu ex coleguinha de escola e ali, entre nuvens e cheiro de rapé, reviveram o troca-troca de experiências musicais. Aos 17 anos, finalmente, Keith abandona sua última tentativa escolar e passa a se dedicar exclusivamente à música enquanto, ao mesmo tempo, é objeto de pesquisa de um laboratório russo-britâninico para estudar a influênica das drogas e bebidas no corpo humano. O laboratório logo fale por falta de fundos, após ver todas as suas hipóteses serem destruídas por Keith, que seguia, firme e forte, apesar de todos os excessos forçados pela empresa.

parque o Keith Richars
Parque onde Keith costumava brincar quando criança

Naquele mesmo ano em que abandonou a escola, 1962, sua mãe sente DESEJOS de ter uma vida normal e Bert acaba deixando a casa, cabeça baixa, se é que isso fosse possível. Keith fica com sua mãe e, por muitos anos, não vê seu pai, até que, em 1982, em uma casa de “negocinhos” na periferia de Londres, o reencontra, agora um cafetão de segunda linha da casa Eunuco’s Virgins. O emprego na fábrica de papel, que conseguira após a guerra, não se manteve por causa da crise, e ele se viu na rua da amargura, e acabou encontrando na bebida e na putaria, uma nova razão para viver. A relação pai-filho não se estreita, embora Keith, da altura de seus devaneios, sinta pena de seu pai. Pelo menos a relação entre eles dura mais do que os efeitos do haxixe e da Maria Joana, uma amiga mútua entre eles, que ajudava o pai a superar as dores das feridas da guerra e o filho a criar coisas belíssimas em sua guitarra espelhada.

Desde que viu o inferno a sua frente durante a invasão da Normandia, Herbert sempre exprimiu seu desejo em ser cremado. Seu sonho virou pesadelo em 2002 quando, aos 85 anos, passou dessa para melhor, prometido que fora com 7 virgens. Suas cinzas, suas regras, deveriam ser espalhadas sobre as praias da Normandia pelos seus descendentes. No caso, Keith, filho único de seu pai; bem, eu nunca afirmarei ser verdade que era mentira. Keith, por algum tempo, guarda as cinzas em sua prateleira, junto com papéis, cachimbos, colheres, réguas, espelhos, pipas e outros objetos decorativos que ele constantemente limpava e mudava de lugar, pois não gostava de ver poeira acumulada.

urna das cinzas
Réplica da urna onde Keith guardava as cinzas de seu pai

Um dia reccebe uma ligação de sua mãe e, ao comentar que ainda tinha as cinzas de seu pai, a mulher tem um ataque de pelancas, um devanaio, uma tentativa de salvar o mundo de seu pior inimigo, em uma a titude de super-mulher. Para Keith, sua heroína era tudo e ele decidiu não deixar isso passar em branco e honrar sua mãe, enquanto dava a seu pai, finalmente, uma chance de conhecê-lo por dentro. Misturou as cinzas do velho Richards com um pouco de sua farinha, empanou um canudinho e o levou a uma viagem que nunca imaginaria que pudesse um dia fazer.

– Meu pai não ligaria, ele nunca realmente ligou para merda nanhuma. E posso te dizer, funcionou muito bem, e eu ainda estou vivo. E foi assim que, um dia, para mostrar que eu sempre fui uma boa pessoa por dentro, eu cheirei o meu pai.

Esse foi mais um texto da série “Verdades Tottinianas”, onde 99% é verídico mas aquele 1%….

Baú do Rock

About the Author: Luiz Totti

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